Resenha: Mar da Tranquilidade

09/11/2014

Título: Mar da Tranquilidade
Edição: 1
ISBN: 9788580413250
Autores: Katja Millay
Editora: Arqueiro
Ano: 2014
Páginas: 368
Skoob
Avaliação:   
Onde Comprar: Compare Preços (Buscapé), Amazon
Sinopse: Nastya Kashnikov foi privada daquilo que mais amava e perdeu sua voz e a própria identidade. Agora, dois anos e meio depois, ela se muda para outra cidade, determinada a manter seu passado em segredo e a não deixar ninguém se aproximar. Mas seus planos vão por água abaixo quando encontra um garoto que parece tão antissocial quanto ela. É como se Josh Bennett tivesse um campo de força ao seu redor. Ninguém se aproxima dele, e isso faz com que Nastya fique intrigada, inexplicavelmente atraída por ele. A história de Josh não é segredo para ninguém. Todas as pessoas que ele amou foram arrancadas prematuramente de sua vida. Agora, aos 17 anos, não restou ninguém. Quando o seu nome é sinônimo de morte, é natural que todos o deixem em paz. Todos menos seu melhor amigo e Nastya, que aos poucos vai se introduzindo em todos os aspectos de sua vida. À medida que a inegável atração entre os dois fica mais forte, Josh começa a questionar se algum dia descobrirá os segredos que Nastya esconde – ou se é isso mesmo que ele quer.
Não sei vocês, mas sempre que vou ler um livro muito aclamado pela crítica e por outros blogueiros, tenho o receio de acabar não encontrando tudo aquilo que achei que a história prometia. Já tive esse receio substituído por alegria em encontrar um enredo realmente merecedor dos comentários, assim como já me decepcionei bastante com livros que se encontravam na mesma situação. Mas fico feliz em dizer que Mar da Tranquilidade passou longe dessa segunda situação.

Nastya Kashnikov tivera seu maior tesouro arrancado dela em um incidente que, mesmo depois de quase três anos, continua a assombrá-la. Então, na tentativa de fugir do passado que ela custa a esquecer, ela resolve se mudar com sua tia para outra cidade, por entre um anonimato que ela espera poder driblar seus conflitos internos. Ela só não esperava encontrar um rapaz que compartilhasse da mesma antissocialidade que ela, e, mais ainda, que ele pudesse guardar um passado tão conturbado quanto seu. Assim como ela, Josh Bennett sofrera perdas irreparáveis na vida, que não são segredos para ninguém no colégio, automaticamente extinguindo qualquer contato dos demais alunos com ele, com exceção apenas de seu melhor amigo Drew. Logo mais, Nastya também passará a adentrar a esse campo de força do rapaz, e à medida que a atração entre ambos se torna inegável, eles terão de decidir se desejam encarar os segredos um do outro, e, se o fizerem, se irão suportar o peso da verdade.

Ainda é meio surpreendente saber que esse foi o livro de estreia da autora. Dividido sob os pontos de vista de Nastya e Josh, a trama, os personagens, os acontecimentos, as emoções... é tudo tão bem moldado e desenvolvido que, sendo então seu primeiro livro publicado, só tenho a parabenizá-la. A narrativa é boa de se acompanhar, e a forma como tudo se desenvolve na trama é de uma delicadeza, mas, ao mesmo tempo, de uma força tão grande, que mesmo sem derramar uma única lágrima durante sua leitura, ainda me deixou bastante transtornada e impressionada com o modo como as emoções estão presentes nesse livro. A autora foi feliz ao abordar as emoções dos personagens de forma explícita em meio, não apenas às próprias afirmações destes em narração, como, principalmente, em pequenos gestos de seu dia-a-dia. Um gesto indiferente, um silêncio proposital, uma troca de olhares silenciosa, e mesmo frases que, aos olhos de personagens externos à situação não teriam tanta importância ou impacto, mas que para quem se identifica e/ou conhece os problemas dos personagens, têm muito significado. Mas não pensem que o livro vai ser inteiramente dramático ou forte emocionalmente; também temos alguns bons momentos de descontração para aliviar a tensão.

“— Por que você a chama de querida e nunca usa expressões carinhosas comigo? — Ele (Drew) finge se queixar.
— Eu uso, sim — diz a Sra. Leighton, dando um tapinha de leve no rosto dele enquanto passa por nós. — Na semana passada eu chamei você de ‘a cruz que eu carrego’.
— É mesmo — diz ele. — Nesse dia você estava inspirada.”

Os personagens por si só, também, desempenharam papéis muito marcantes e intensos. Nastya e Josh são o retrato da imperfeição, cada um a seu modo convivendo com o que restou de si mesmo após o passado sofrido, e sem qualquer pretensão de serem heróis ou anti-heróis. Temos aqui, simplesmente, exemplo de personagens que são reais, com defeitos como qualquer outra pessoa, e isso, de certa forma, impulsionou ainda mais a sinceridade da leitura. Suas atitudes não são o que podemos chamar de previsíveis ou ensaiadas; por vezes, eles eram movidos às próprias emoções, com atitudes impulsivas ou mesmo deixando de agir quando deveriam. Então, existiram, sim, os momentos em que eu quis gritar com eles por fazerem ou deixarem de fazer ou dizer algo, por se entregarem tanto às próprias lamentações, mas a verdade é que só entende quem está na pele deles. 

Outra coisa que gostei muito no livro é que o romance não se desenvolve da noite para o dia, nem mesmo a atração entre eles. Seguindo quase que a realidade, temos uma relação que começa de forma inusitada, lenta, e ao mesmo tempo em que ambos visivelmente entendem o sofrimento um do outro, também permanecem vendados quanto aos segredos profundos de cada um, principalmente uma vez que Nastya prefere manter-se no silêncio por um bom tempo. As emoções passadas continuam dominando-os, e vamos acompanhando o surgimento da confiança e do companheirismo entre eles, à medida em que também vamos descobrindo, juntamente com Josh, os segredos de Nastya, e enfim tomando conhecimento do incidente que a arrasou no passado. Quanto aos outros personagens presentes na trama, porém, não sei vocês, mas eu gosto muito de autores que valorizam seus personagens secundários. Desde os coadjuvantes, até aqueles que, à primeira vista, não pensamos que pudessem se tornar grandes peças no enredo. Drew, de certa forma, foi uma delas para mim. 

“— Então por que ninguém a ajuda?
— Talvez ninguém saiba como ajudar. Às vezes é mais fácil fingir que não há nada de errado do que encarar o fato de que está tudo errado, mas não podemos fazer nada.”

O melhor amigo mulherengo de Josh, por trás de uma postura despreocupada, galanteadora e provocadora, é, na verdade, um amigo muito leal, mas isso só fica realmente claro quando percebemos que, ironicamente, ele é o mais inocente no quesito emocional, já que prefere ignorar maiores dramas e sentimentos. Mas uma vez que ele passa a adentrar cada vez mais a situação e aos conflitos dos amigos, passamos a encarar uma faceta do personagem que achamos não existir. Inicialmente, ele é meio que responsável por descontrair algumas cenas, e eu ri bastante com ele, mas também me surpreendi muito depois, porque, apesar de ele definitivamente não ser nenhum cara certinho, ele ainda sabe usar do bom senso quando realmente preciso, e até mesmo dar uns puxões de orelha no Josh quando necessário. A Sra. Leighton, mãe do Drew, também foi outra de quem eu gostei bastante. Sendo uma verdadeira mãe e amiga para os outros personagens, ela conseguiu intervir das maneiras mais certas possíveis no enredo, além de ser dona de uma personalidade tão meiga e gentil. 

Explorado e desenvolvimento de uma forma singular, nada previsível, e com uma carga especial de emoção por entre as linhas e entrelinhas dessa história, Mar da Tranquilidade foi, para mim, uma leitura inesquecível, que conseguiu me cativar e me surpreender mesmo quando eu tinha receios perante os personagens e os acontecimentos. Katja Millay desenvolveu tudo de uma forma muito bem pensada, com personagens intensos que não adentram à história por pura casualidade, mas que possuem papéis importantes a desempenhar no enredo. Gostei do fato de a editora ter mantido a capa original, inclusive. A silhueta formada por entre um pote de sorvete derramado significa muito para a trama, e é ainda mais bonita ao vivo. E, bem, como podem perceber, eu só tenho motivos para indicar esse livro. É uma história intensa, mas igualmente bela de se acompanhar, que realmente fala sobre amizades, amor e amadurecimento, mas, acima de tudo, segundas chances; recomeços. E uma vez que iniciarmos sua leitura, você só irá querer parar quando chegar a última página.

***

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